Eu vi uns garotos cheirando cola…
O filho da vizinha é “maconheiro”…
Não posso beber cerveja como meu pai…
Por quê?

André Astete 1

Uma das coisas que mais preocupam os adultos é falar sobre drogas, bebida e todas aquelas maneiras de se ficar “viciado” em alguma coisa. Basta reparar: é só surgir uma oportunidade para conversar com os filhos sobre isso e eles ficam sérios, querem que se ouça com atenção o que vão dizer, como se tentassem contar um segredo sobre algo muito perigoso. Normalmente pais, professores e outros orientadores tentam ensinar que existem hábitos como beber muito ou consumir drogas que podem levar as pessoas a perder o controle sobre sua vida, torná-las escravas de outros e mesmo morrer. Há campanhas na TV, nas revistas e livros escolares, mas nunca paramos de ouvir histórias de viciados, alcoólatras e traficantes. Não é improvável que alguém que conhecemos tenha problemas como esses. Mas se todos parecem avisar dos perigos como ainda existem pessoas que desenvolvem vício?

Apesar de todo o esforço dos mais velhos para alertar sobre os perigos das substancias, existem algumas coisas sobre o assunto que na maioria das vezes acabam deixando de ser comentadas. São realidades que muitas vezes conhecemos e que algumas vezes podem por em dúvida aquilo que nos dizem. Lembro-me de quando era garoto e ouvi que as drogas viciavam todas as pessoas e matavam rapidamente, que os drogados sempre tinham “cara de doente” e os traficantes eram como os ladrões, só que quando nos encontravam tentavam nos enganar com estórias espertas ao invés de assaltar. No entanto eu tinha amigos que fumavam maconha escondido e não pareciam estar morrendo e quem trazia para todos era o irmão mais velho de um amigo, alguém que todos achavam um sujeito legal. Ouvi muitas histórias de homens bêbados que agrediam os filhos e as esposas, perdiam o emprego e acabavam morando nas ruas. Mas não me lembro de nenhuma festa em minha casa ou em qualquer outra onde não se servisse pelo menos cerveja. Nessas mesmas festas lembro que às vezes acabávamos dividindo uma cerveja que seqüestrávamos secretamente para algum lugar discreto, e 4 ou 5 garotos mal conseguiam acabar com a garrafa antes que estivesse quente. Era simplesmente divertido! Era também muito confuso…

Existe uma grande diferença entre as substancias que viciam e os venenos que podem nos ajudar a entender essa contradição da qual estávamos falando. Venenos sempre matam ou fazem adoecer, e, sendo assim, não há muitos exemplos de pessoas que tenham ficado bem após ingerir algum veneno. Sempre que ficamos próximos de ter contato com algo venenoso temos em nossas memórias apenas as lembranças ruins que não nos deixam duvidar do perigo, por isso poucas pessoas se esquecem de tomar cuidado ou se arriscam. O álcool e as drogas não tornam todas as pessoas viciadas, e, quando isso ocorre, não é aparente desde o início. E não há como saber com quem vai acontecer. Lembro-me que muitos dos meus amigos tomaram os primeiros goles de álcool nas mesmas festas que todos nós freqüentávamos. Hoje tenho 35 anos, sou médico, e tenho o desprazer de contar que pelo menos três daqueles amigos, que beberam a mesma cerveja que todos, no mesmo lugar e do mesmo jeito, se tornaram muito doentes, foram declarados “alcoolistas” e já foram internados diversas vezes para um tratamento que parece não estar funcionando muito… Nada parecia acontecer de errado na época conosco ou mesmo com eles durante muito tempo, por isso perdemos o medo de beber e isso passou a fazer parte das nossas brincadeiras e momentos de diversão mais tarde. Hoje parece muito menos engraçado.

O mesmo aconteceu com os amigos que fumavam maconha, inalavam lança-perfume ou cheiravam cocaína, faziam parecer apenas divertido no início, pareciam saber o que fazer. Eram vistos como os mais corajosos e experientes e me lembro de amigos que diziam que ficar viciado era coisa para quem não sabia como usar. O fato de eles estarem bem e de conhecerem a história de um adulto amigo de nossos pais que era “maconheiro” na escola e estava vivo e sem problemas, apesar de não usar mais, fazia parecer que eles tinham toda a razão. Dos meus amigos “corajosos e espertos” hoje sei que quase ninguém usa mais droga alguma. De alguns tenho uma lembrança que tem se apagado progressivamente com os anos, pois morreram aos 18, 23, 25 anos e ninguém notou que iriam se viciar antes de isto já ter se tornado evidente para todos, antes que toda a escola e todo o bairro já soubesse, pois eles já não conseguiam esconder.

O tal adulto que tinha usado drogas na escola um dia contou que parou porque ficou assustado com os amigos que adoeceram, e, muito irônico, disse que nunca soube porque não ficou exatamente como eles, não se tornara um “viciado” apenas por sorte, porque tanto ele como os outros faziam a mesma coisa nos mesmos lugares e pensavam do mesmo jeito. Quando resolveu parar, sua turma tinha se acabado e ele apesar de ser o único que não tinha ficado dependente não conseguiu evitar que a cidade o visse como viciado.

Tal como não se pode prever onde um raio vai cair, nunca podemos prever o que pode acontecer quando conhecemos uma substancia que causa dependência e a experimentamos. Passa a ser um jogo mais arriscado que caminhar numa corda suspensa, como no circo, com a diferença que o equilibrista sabe como recuperar o equilíbrio quando ameaça perdê-lo. Uma pessoa que se torna dependente normalmente nem se lembra quando a brincadeira passou a se tornar doença e na maior parte das vezes não consegue controlar o problema sem ajuda. Eu disse “controlar” porque infelizmente não existe cura. Pessoas que desenvolvem a dependência (nome que os médicos dão ao vício de substancias) nunca mais conseguem usar aquela substancia para se divertir como no início. São obrigados a parar para sempre e quando se esquecem deste “para sempre” e voltam a experimentar a bebida, mesmo uma mais fraca, ou alguma droga, mesmo maconha, acabam rapidamente piorando da doença. Por isso não há cura, só maneiras de controlar parando completamente o uso, o que faz a vida voltar lentamente ao normal.

Tudo isto sempre será o mais difícil de entender, e será o motivo pelo qual sempre conviveremos com essa armadilha. Nossos pais e professores sempre ficarão preocupados e sempre haverá amigos acreditando que é exagero, que não vai acontecer com eles ou conosco. Mas a realidade é muito diferente das nossas fantasias alegres e precisamos aprender porque certas regras tem sua razão de existir. Evitar as drogas, aprender a se divertir sem beber ou inalar solventes é algo que a humanidade está tentando há muito tempo, por razões muito graves e tristes.

Talvez você que lê este texto possa mostrar a todos que diversão não precisa se tornar um caminho perigoso. Pense nisso e converse com quem gosta de você.

1Médico formado pela UFPR com especialização em Psiquiatria pelo IPq-HC-FMUSP

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