ESQUIZOFRENIA
André Astete
O que é?
Considerada há séculos a doença que melhor representa o conceito popular de "loucura", a esquizofrenia continua sendo um dos mais misteriosos fenômenos dentre todos os males estudados pela psiquiatria. Poucas coisas podem ser mais impressionantes que observar um paciente em franco episódio psicótico, perdido em seus delírios e atormentado por alucinações. Na tentativa de explicar os estranhos estados psicológicos observados nos esquizofrênicos, não só médicos, mas também intelectuais de todas as áreas se preocuparam em escrever sobre a "loucura". Ainda hoje, no entanto, a maior parte das pessoas não tem real conhecimento sobre o que é esta misteriosa patologia. Não que se trate de um fato raro! As estatísticas modernas apontam que em média 0,5 a 1 % da população é esquizofrênica, em todas as comunidades pesquisadas do mundo. Isto significa que numa cidade do porte de Curitiba, entre 8.000 a 16.000 pessoas são afetadas por esta grave e incapacitante doença. Apesar da enorme variabilidade em termos de condições de tratamento nas comunidades, espera-se que ao final de um ano, pelo menos 20% destes pacientes sofram internamento devido a agudização (piora) sintomática. Por esta razão, e devido à duração média dos internamentos (30 a 90 dias), os gastos com esquizofrenia estão sempre entre as preocupações prioritárias em termos de saúde pública.
Sintomas principais
Três grupos de sintomas podem se combinar para que se faça um diagnóstico de esquizofrenia:
- Sintomas psicóticos: são os delírios e as alucinações, sintomas que se manifestam freqüentemente nas fases agudas da doença, em seu começo e durante as pioras, podendo às vezes se tornarem crônicos. Delírios são crenças irreais, muitas vezes absurdas, nas quais, mesmo depois de devido esclarecimento, o paciente é incapaz de deixar de acreditar. Os exemplos mais comuns são idéias de perseguição, delírios religiosos, de estar sendo espionado ou controlado e etc. Alucinações são em geral percepções auditivas, visuais ou tácteis, não causados por estímulo real. Na esquizofrenia as alucinações mais freqüentes são auditivas, e em geral são vozes ameaçadoras falando com o paciente, a seu respeito ou sobre fatos aleatórios.
- Sintomas deficitários ou negativos: os pacientes desenvolvem de forma mais ou menos intensa perda de habilidades comportamentais e psicológicas, e esta é considerada a característica mais importante e realmente incapacitante da doença. Os pacientes que antes eram comunicativos se tornam calados e retraídos, muitas vezes apáticos, sem iniciativa. As manifestações emocionais podem se tornar pobres e inexpressivas, e muitas vezes inapropriadas para a ocasião de sua ocorrência. É notória a perda da capacidade de raciocínio lógico e a aparente falta de bom senso. Muitas vezes a perda aparente de inteligência equivale ao observado em certos graus de retardo ou demência.
- Sintomas desorganizados: a fala pode se tornar tão confusa que o ouvinte não chegue a compreender seu sentido. Da mesma forma o comportamento pode ser caótico e despropositado e o paciente chega às vezes a necessitar que outras pessoas o façam alimentar-se, ingerir líquidos ou mesmo cuidar da higiene.
A esquizofrenia é uma doença crônica, isto é, uma vez manifestos, seus sintomas jamais desaparecem por completo, apesar de muitas vezes perderem a intensidade. Manifesta-se em geral em jovens ou adolescentes, sendo mais comum e mais precoce em homens. Em alguns casos se manifesta lentamente em pessoas que sempre tiveram certas características psicológicas incomuns, semelhantes a um leve retardo desde a infância. Porém na maioria dos casos, os sintomas surgem quase sem aviso, em pessoas previamente saudáveis, ao longo de semanas ou poucos meses, raramente dias, encontrando suas vítimas em pleno desenvolvimento, nas fases mais produtivas de suas vidas. O paciente pode ter muitos períodos de intensificação, onde em geral se mostra mais psicótico, porém são os sintomas negativos ou deficitários os mais constantes e os responsáveis pelo fato dos pacientes não voltarem a ser tão capazes quanto antes da doença. Pelo mesmo motivo a maioria dos pacientes não consegue levar uma vida independente em termos econômicos ou sociais, sendo que os homens, em geral solteiros quando acometidos, dificilmente se casam.
Tratamento
O tratamento medicamentoso é hoje considerado indispensável para manter condições mínimas de saúde e mesmo de dignidade para os portadores de esquizofrenia. Os principais tratamentos se fazem com medicamentos antipsicóticos, muito eficazes no tratamento dos sintomas psicóticos ou desorganizados e, no caso dos novos antipsicóticos, pode haver melhora moderada dos sintomas negativos. Graças aos tratamentos medicamentosos a maior parte dos pacientes pode ser tratado fora de ambientes de internação, sob os cuidados dos familiares. Somente em situações de intensa agitação, de risco comportamental ou por motivos diagnósticos é que se realiza o internamento. Os medicamentos causam freqüentemente efeitos colaterais, porém na maior parte das vezes é possível controlá-los sem interromper o medicamento, não sendo necessário haver sonolência ou efeitos sobre os movimentos. Vários programas que combinam terapia ocupacional e treino de habilidades socializantes podem beneficiar pacientes desde que, porém estes estejam em fase estável. Hospitais dia e residências protegidas, ainda pouco disponíveis em nossas comunidades, freqüentemente são meios de apoio de grande valia para as famílias no cuidado dos pacientes em fase crônica.






