DISTÚRBIOS DO SONO

André Astete

Houve época em que tudo o que se dizia a respeito do corpo e suas funções eram visto com sincero assombro. Fatos cotidianamente observáveis como o pulso arterial, a digestão, febres ou a gestação eram exemplos dos limites da ciência numa época em que o cidadão comum podia facilmente apontá-los. Foi a ciência dos últimos 200 anos em especial a responsável pelo distanciamento entre o que é razão para a curiosidade da maioria e o que poderíamos chamar de fronteira do conhecimento científico. Não é mais possível, salvo em raríssimas exceções, fazer observações científicas relevantes em nossas próprias cozinhas!

Estes fatos, porém, foram heterogeneamente repetidos na medicina e, assim, algumas de suas fronteiras ainda são visíveis, notadamente as funções e fenômenos relacionados ao cérebro. Dormir, por exemplo, é algo que fazemos todos os dias e ainda assim não haveria cientista capaz de responder honestamente para que isto realmente sirva! São dezenas de teorias e toneladas de material de investigação em todos os níveis destinados a responder todo tipo de questão sobre o sono, como por exemplo: Por que sonhamos?

A mera curiosidade, porém, não é a única razão para tanto esforço. Milhões de pessoas dormem mal ou mesmo mal dormem. Os distúrbios do sono são responsáveis pela existência de uma verdadeira subespecialidade para seu estudo, na fronteira entre a neurologia e a psiquiatria, e pode-se dizer que muito já se conhece de suas realidades.

Perturbações do "ciclo sono vigília", como os médicos batizaram o processo de dormir, acordar e ao final do dia voltar a dormir, são hoje vistos como manifestações de outras doenças ou mesmo como patologias específicas do sono. Muitas doenças do organismo como um todo, podem indiretamente afetar o cérebro e perturbar o ciclo de sono, como o que ocorre nas fases finais da insuficiência hepática ou renal. A Depressão, no entanto, é a doença mais comum entre as causas de perturbações do sono. Mesmo em suas formas leves tende a ser acompanhada por mudanças da qualidade e quantidade do sono, podendo haver todos os tipos de Insônia como fragmentação (acordar muitas vezes durante o sono), superficialização, dificuldade para iniciar o sono, despertar precoce (às 3 da manhã, por exemplo) com incapacidade para voltar a dormir, pesadelos, perda da qualidade repousante do sono e, por fim, excesso de sono.

Muitas formas de distúrbios específicos do sono foram até o momento classificados além daquelas formas secundárias a outras doenças. Existem as chamadas "Dissonias" que incluem a insônia primária e um curioso e complexo distúrbio que inclui crises de sonolência diurna irresistível chamado narcolepsia; e as parassonias que incluem todos os fenômenos anormais associados ao sono, como as manifestações de perda da inibição motora que explicam o sonambulismo, e as perturbações do sono REM (abreviatura inglesa de "Rapid Eye Movement") que é à parte do sono onde ocorrem os sonhos e os pesadelos. São ainda definidos distúrbios relativos ao acordar e a fenômenos que envolvem outros aparelhos que ocorrem exclusivamente no sono. Um dos mais conhecidos distúrbios é a apnéia noturna, invariavelmente acompanhada de ronco obstrutivo, que é caracterizada por ronco progressivamente ruidoso que depois, numa repetição regular, culmina em franca, porém transitória obstrução respiratória onde o paciente pode chegar a ficar cianótico (arroxeado). É causada por um relaxamento anormal do pálato e predisposto por obesidade, rinite crônica e outras obstruções nasofaríngeas associadas. Em casos graves a apnéia do sono pode levar à morte súbita pacientes que tenham desenvolvido doença pulmonar ou cardíaca. Por fim existem formas de epilepsia que só ocorrem no sono.

Em muitos casos o paciente ou seus familiares são capazes de descrever os fatos suficientemente bem para que se faça o diagnóstico na consulta médica. Porém, por traz de queixas como "sono agitado", incapacidade de descansar ou despertares podem esconder patologias nas quais só com a monitorização visual, eletroencéfalográfica e respiratória, como ocorre na Polissonografia, será possível realizar o diagnóstico adequado.

De todos os distúrbios do sono a insônia é a maior fonte de consultas médicas e de formas de tratamento. Milhares de pessoas dormem mal, havendo evidencias estatísticas suficientes para tornar o problema um assunto muito relevante em termos de saúde pública. Um levantamento populacional em 1.006 residências em Los Angeles, publicado ainda no fim dos anos 70, chegou a afirmar que até 42,5% dos pesquisados tinham freqüente dificuldade para iniciar o sono e muitos consideravam ter insônia crônica. Conseqüência óbvia, o fato do consumo de drogas indutoras de sono (hipnóticos) ser constantemente alto em todas as sociedades ocidentais, e a julgar pelo que ocorre em nossa comunidade, sem que os médicos se esforcem consistentemente para encontrar tratamentos mais adequados ou seguros em longo prazo.

O Dr. Colin Shapiro, de Toronto no Canadá, resume estudos que afirmam que aproximadamente 36% dos casos de insônia são causados por doenças psiquiátricas como depressão e ansiedade, 16% são de causa desconhecida (insônia primária), 12% acompanham o alcoolismo ou outras dependências, 12% são diagnosticados como portadores de fenômenos como movimentos anormais periódicos dos membros (síndrome das pernas inquietas) e, por fim, 6% devido à apnéia, doenças sistêmicas, turnos irregulares de sono/trabalho, entre outras causas. A maior parte pode ser tratada com sucesso e segurança, o que faria seus portadores voltarem a dormir bem sem hipnóticos.

Sem tratamento adequado, os doentes utilizam continuamente os medicamentos, com a conivência às vezes desinformada dos médicos. Um estudo de 15 anos de duração na Suécia, envolvendo 27 mil pacientes que usavam regularmente hipnóticos, afirma que, nesse grupo, uma em cada cinco mulheres e três em cada cinco homens tinham sido internados por diagnóstico psiquiátrico pelo menos uma vez.

Nenhuma das doenças listadas entre as causas de insônia tem essa estatística de internamento, o que sugere uma influência alarmantemente negativa das drogas hipnóticas quando usadas em longo prazo. É um assunto a não ser descuidado, especialmente pelas autoridades de saúde pública.

Deixando as estatísticas de lado, para quem já teve a desagradável experiência de não conseguir dormir, pode-se dizer sem medo: dormir bem é uma dádiva. O sono adequado e no horário desejado tem óbvios efeitos sobre a disposição diurna. Parece também ser fundamental para o crescimento das crianças, pois o hormônio do crescimento é 80% liberado durante o sono. Além disso, ele é necessário para a regulação imunológica, reparação do estresse físico ou psicológico e, não menos importante, para manter as pessoas em sincronia temporal.

Um bebê, em aceleradíssimo processo de desenvolvimento, dorme de 16 a 20 horas por dia, e crianças, de 10 a 12 horas. Adultos dormem em média sete horas em condições saudáveis, num sono habitualmente único, fora a habitual "siesta". Somente após os 60 anos é que o sono se torna naturalmente fragmentado, com períodos diurnos. Tudo isto é saúde e todos têm esse direito. Muitas vezes o médico terá um papel decisivo na solução da insônia, mas precisa estar tecnicamente preparado. Para a grande maioria dos distúrbios do sono ou associados ao mesmo já contamos com métodos terapêuticos eficazes e queixas persistentes do sono encontram recursos diagnósticos num nível progressivamente satisfatório em nossa comunidade. No entanto, algumas atitudes não dependem de um médico para serem utilizadas como um meio para dormir melhor. Sugestões nossas e do Dr. Geraldo Rizzo, de Porto Alegre: não fume, evite bebidas com cafeína após as 15h, evite bebidas alcoólicas, cocaína e estimulantes; evite remédios para dormir sem real acompanhamento médico, mantenha-se bem condicionado fisicamente, porém, evite exercícios físicos logo antes de dormir; não durma com fome ou sede, procure um ambiente sem luminosidade ou ruído e com temperatura agradável para dormir; tenha horários regulares para dormir e levantar evite turnos de trabalho mutáveis, use a cama apenas para sono e sexo (evite comer, estudar e para ler escolha uma poltrona confortável), vá para a cama quando tiver sono e saia dela quando acordar sem sono faça refeições noturnas mais leves e deixe as preocupações longe da cama!